Deveria começar pelo relato de parto, eu sei. Mas relato de parto deve ser parido e eu gosto de detalhes e isso significa demorar para escrever. Como o blog ta abandonado e quero espanar a poeira vim começar por um começo não tão começo, mas tão importante quanto: a internação do Rafa na UTI neonatal por icterícia. Sempre tive medo disso… Sempre imaginei a dor de uma mãe em ter que deixar o filho no hospital e voltar para casa sem ele em seus braços.

Rafa nasceu prematuro de 36 semanas. Nasceu com peso e tamanho bons (2,750kg e 47cm), se recuperou bem durante o trabalho de parto, temperatura boa, não precisou ficar na incubadora do berçário em suas primeiras horas de vida. Um alívio sem tamanho. Percebi que ele estava com a pele muito vermelha, a enfermeira da maternidade disse que era comum em bebês prematuros. Eu, na minha santa inocência, pensei: “que bom que está vermelho, pelo menos não está amarelo e não corremos o risco de ter icterícia”.

Depois conversando com o pediatra da sala de parto que estava fazendo acompanhamento do Rafa na maternidade, ele explicou justamente ao contrário, que essa vermelhidão rapidamente vira amarelo, que isso é excesso de bilirrubina no corpo. Ele já tinha me recomendado acordar o Rafa de três em três horas para amamentar por conta da prematuridade, ele reforçou o pedido para tentar eliminar o mais rápido o excesso de bilirrubina do organismo.

Acontece que baby Rafa nasceu prematuro e a sucção é uma das últimas coisas que o bebê desenvolve na barriga da mãe. Ele simplesmente não mamava, só dormia para o meu desespero. Totalmente diferente do Biel que já nasceu mamando. Ou seja, a cada três horas eu chamava as consultoras de amamentação da maternidade para me ajudar a acordá-lo e fazê-lo mamar. Porque além de tudo ainda tinha que ensinar a pega correta.

Como ele continuava bem vermelho, no dia da alta o pediatra pediu um teste de rotina de icterícia. O resultado foi mais alto do que ele esperava, mas não alto o suficiente para internar. Com isso, ele nos liberou para ir para casa mas pediu para voltarmos no dia seguinte para fazer o teste novamente. Ele pediu para continuar amamentando de três em três horas e colocar o Rafa para pegar sol.

Por conta da rotina exaustiva, ainda mais com filho mais velho se adaptando ao novo integrante da família, era simplesmente impossível acordar cedo para pegar sol. O que nos restava era dar banho de sol no final da tarde. Voltamos no dia seguinte para realizar mais um exame. Resultado saiu, a bilirrubina tinha aumentado, mas não o suficiente para internar, continuava limítrofe.

Chegou dia 31 de dezembro de 2016, voltamos na maternidade para realizar mais um exame de rotina de icterícia. E mesmo com leite abundante, baby Rafa mamando bem, banho de sol, a taxa continuava subindo, pouco mas subindo. Estava morrendo de medo do pediatra falar que ele teria que internar naquele dia. Imagina passar a virada do ano sem meu novo amor, sem ter minha família completa. Nesse momento, como a taxa ainda estava relativamente baixa, acredito que o pediatra aliviou e liberou para ir para casa. Mas dentro de mim algo dizia que no dia seguinte a gente não escapava da internação.

Foi a pior noite de réveillon da minha vida. Passei o dia 31 chorando, não quis me arrumar, fiquei de camisola, fui dormir cedo e por acaso acordei pouco antes de meia-noite para amamentar baby Rafa e passei a virada com o marido. No dia seguinte (1 janeiro) acordei seis e meia da manhã e às sete estava na praia junto com os bêbados para Rafa tomar banho de sol. De tarde voltamos para fazer o exame e mais uma vez a taxa tinha aumentado. Pouco, ainda era considerada baixa, mas segundo o pediatra como ela continuava subindo seria necessário internar… Para não internar, a taxa deveria ter estabilizado e parado de subir.

A enfermeira nos levou até a UTI neonatal, lá fomos recebidos pela médica, que contactou o pediatra. A indicação para internação por icterícia era ficar na UTI II (que é mais branda), mas não tinha vaga. Com isso, Rafa internou na UTI I, que é para casos mais graves. O tratamento consistia em realizar fototerapia por 24h e depois aguardar mais 24 para ver como organismo reagia. Nos informaram que o horário de visitação para pai e mãe era de 10h às 21h. E as mães tinham acesso livre para amamentar de três em três horas (9h, 12h, 15h, 18h, 21h, 00h, 3h e 6h). O único problema é que eles não possuem leito para os pais, com isso inviabilizava minha permanência 24h para amamentar. Por sua vez, me informaram que a maternidade possuía lactário e que eu poderia tirar leite para ele mamar de madrugada. Uma dica que o pediatra deu é insista na amamentação, se mostre disponível para amamentar, porque para o corpo médico do hospital é muito mais fácil prescrever fórmula. 

Antes dele entrar, a pediatra responsável pelo plantão faz uma “entrevista” com os pais para saber a história do bebê e tentar rastrear possíveis intercorrências médicas. No nosso caso, quiseram saber como foi o parto, se eu tinha incompatibilidade sanguínea com o Rafa e se eu tive infecção urinária na gravidez. Segundo a médica esses fatores podem causar icterícia ou ele pode desenvolver apenas pela prematuridade.

Após o Rafa entrar na UTI e estar instalado, corri para o lactário para tirar leite. Aí vem o meu primeiro desespero. Sou informada de que eu deveria ter agendado um horário para receber orientação e que possivelmente não seria atendida naquele dia e que meu filho tomaria fórmula naquela noite. Pronto, entrei em desespero. Ninguém tinha me informado isso na UTI. Como falam isso para um mãe que tem leite? no puerpério? desatei a chorar e voltei para UTI aos prantos. A enfermeira da UTI interviu e conseguiu que me atendessem no lactário. Outra coisa que não me informaram era que o lactário não era 24h e funcionava de 7h às 19h e eram 18h20 quando fui atendida. A indicação da pediatra da UTI, era dar 40ml por mamada, ou seja, eu tinha que tirar pelo menos 80ml para as mamadas de três e seis da manhã. E a bomba elétrica não é tão eficiente para extrair leite e o peito demora a se acostumar com aquele estímulo. Ainda tinha outra coisa, naquela hora eu deveria estar na UTI amamentando o meu filho, que já começava a chorar de fome. Tive 25 minutos para tirar leite, tirei apenas 60ml. Pedi para darem 40ml na mamadas das três da manhã e 20ml na das seis da manhã e complementar os 20ml restante com fórmula. Saí de lá literalmente correndo para UTI amamentar.

As primeiras horas na UTI foram fundamentais para eu entender o funcionamento tanto da estrutura quanto da relação de cuidados e carinho do corpo médico com aqueles bebês e famílias. Ainda estava muito assustada com tudo, mas ver bebês tão extremos ali do lado do meu filho, me mostrava que icterícia não era nada comparado. E aos poucos meu coração foi se acalmando. Naquele domingo, depois que acabou a visita entrei para amamentar às 21h e 00h e fiquei uma hora lá dentro, curtindo meu filho e amamentando. Por ser ainda muito pequeno, ele ainda não era eficiente na mamada e dormia muito durante a amamentação e o corpo médico em nenhum momento me pressionou para acabar e ir embora.

Na segunda de manhã acabei madrugando por conta do seio empedrado de tanto leite, resolvi correr para maternidade para tirar leite para ele tomar às 18h, enquanto eu tirava o leite da madrugada. Como o peito estava muito cheio, acabei tirando 55ml, o que foi ótimo, porque a pediatra da UTI tinha aumentado a dieta do Rafa para 50ml por mamada. Às 9h eu entrei novamente para amamentar e assim foi o nosso primeiro dia de UTI, marido e eu nos revezávamos para estar sempre presente com o Rafa.

Os primeiros exames de icterícia mostravam que ele estava reagindo super bem ao tratamento, a taxa estava baixando e às 20h de segunda ele acabou com as 24h de fototerapia. Agora era aguardar doze horas para ver se a taxa se manteria baixa. Os resultados dos outros exames que eles fizeram de rastreamento também deram todos negativos, ou seja a causa a iterícia era apenas pelo fator prematuridade. Naquela segunda, sai da maternidade uma da manhã e na terça cheguei às sete e meia para tirar leite. Tinha esperança de ter alta na própria terça, mas caso não tivesse queria garantir que ele iria continuar exclusivo em leite materno.

Rafa repetiu os exames da rotina de icterícia, a taxa se manteve baixa (graças!), fez alguns outros exames complementares para ver se a icterícia e o tratamento tinham afetado a audição e a parte neurológica, tudo certo também. E naquela terça (3 de janeiro) às 15h recebemos alta e fomos para casa <3

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