Ao longo desses quase nove meses de gestação dediquei meu tempo, meu olhar para as mudanças que estavam ocorrendo na minha vida, no meu corpo, na minha mente e qual seria melhor caminho para o meu filho e minha família. Brinco que as escolhas que fiz ao longo desse tempo possuem três justificativas: religiosas, fisiológicas e por amor. Neste caso, a ordem não importa, todas as escolhas são igualmente importantes.

Sempre quis parto normal e apesar da ordem acima não importar, o meu despertar começou com minha crença religiosa. Sou cristã, kardecista. E ao ler o livro “Nossos filhos são espíritos”, uma luzinha se acendeu em minha cabeça sobre a importância não só da criação/ educação, sobre a responsabilidade de ter um filho, mas também sobre o momento da concepção, do nascimento e dos primeiros momentos de vida daquele serzinho.

Nascer é tão ou mais difícil do que morrer. É doloroso, existe o medo do que há por vir. Se enganam os que acreditam que os bebês não possuem consciência, pelo contrário. Eles são bem conscientes durante o período gestacional e em seu primeiro ano de vida. E isso não é explicado apenas pela minha crença religiosa, mas também pela fisiologia do obstetra francês Michel Odent. E se existem formas de minimizar tudo isso ou de tornar o nascimento mais amoroso, menos frio e mecânico, eu, Júlia, farei de tudo para tornar essa passagem mais tranquila não só para o meu filho, mas também para a construção da minha família.

Logo na segunda consulta, minha obstetra entregou um livro para meu marido ler: A cientificação do amor, e me deixou como dever de casa a leitura também. O livro de Odent é maravilhoso e merecia diversos posts profundos, mas não me sinto com propriedade para falar tão a fundo sobre o assunto, então vou pincelar o que mais me chamou a atenção.

No livro, ele aborda a importância para um curto e crítico período de tempo logo após o nascimento que traz consequências no que concerne nossa capacidade de amar. Esse período pós-parto (na qual normalmente a mãe é separada do filho pelos procedimentos padrões e estadia no berçário) é crucial para a formação de vinculo entre a mãe e o bebê.

Ele comprova isso com estudos de pesquisadores sobre o comportamento de outros animais que tem como hábito lamber a cria logo após o nascimento. Esse ritual é fundamental para a criação de vínculo entre mãe e filho. As mães que não foram permitidas a realizar esse ritual, lamber a cria, e que foram separadas delas, não reconheceram seus filhotes após certo tempo, ou seja, perderam seu instinto maternal. Poderíamos incluir neste processo de vinculação o ato de amamentar logo após o nascimento.

Quando falei lá em cima sobre a consciência do bebê mesmo durante a gestação, parto e em seu primeiro ano de vida, existem estudos que comprovam que o estado emocional que a mãe se encontra durante esse período pode ter efeito a longo prazo nos campos da sociabilidade do individuo e em sua capacidade de amar – seja a si próprio ou aos outros.

Michel Odent fala também sobre os riscos de intervenções durante o parto. Seja psicológico, seja fisiológico. Os mamíferos desenvolveram uma estratégia para não serem observados quando dão a luz. Na nossa sociedade, as pessoas que estão acompanhando o parto tentam influenciar neste processo, como se elas fosse protagonistas daquela história e esquecendo do reais donos da situação são a mãe e o bebê.

Para um trabalho de parto (TP) correr de forma tranquila e evoluir, o cérebro libera uma descarga de hormônios (ocitocina, endorfina, prolactina, entre outros) ativando a sua área mais primitiva, que é comum a todos os mamíferos, e desativando a sua área “racional”, chamada de neocortex. Quando ocorrem intervenções, esta última área do cérebro não consegue se desligar por completo, dificultando a evolução do TP.

É comum ouvirmos falar que uma mulher em TP ativo parece estar em outra dimensão. Ela se desvincula do nosso mundo rumo a uma viagem interior. Essa mudança no nível de consciência pode ser interpretada como redução na atividade neocortical. Procurando colaborar com esses aspectos fisiológicos, que hoje em dia se fala tanto em parto humanizado, com luz baixa, temperatura agradável, sem bate-papo excessivo entre os envolvidos, expressões de ordem e buscando passar uma sensação de segurança para aquela mãe concentrada.

E da mesma forma que a mãe recebe essa enxurrada de hormônios, o bebê também recebe. Tanto que imediatamente após o parto, o bebê é capaz de reconhecer sua mãe, seja pelo ofato ou pela audição.  Olha aí, mais um argumento sobre a importância do período pós-parto.

Bem, o livro aborda muito mais detalhes, levanta diversas questões, mas essas foram as que me chamaram a atenção e fazem parte da minha “justificativa”. Diante disso tudo e voltando um pouco para a minha religião, uma vez absorvido o conhecimento e consciente das consequências, impossível ficar alheia a tudo isso.

O que eu quero? Quero estar conectada com o Gabriel, quero liberdade, afeto, compreensão, apoio durante o TP do meu marido e da equipe que escolhi para este momento tão especial. Após o nascimento, que ele venha para o meu colo para que eu possa “lamber minha cria”, que meu marido/pai corte o seu cordão umbilical após parar de pulsar e que a gente fique ali, todos transbordando ocitocina e sacramentando a nossa família.

Vocês devem estar se perguntando, “mas e o amor”? Ele permeia cada linha desse texto, é a razão da minha atual existência, da minha busca, da minha entrega. Pelo amor ao meu filho, ao meu marido (que me escolheu para a missão de ser mãe do seu filho) e a minha família, vou encarar os meus medos, mas também descobrir a minha força, vou de encontro a minha alma.

texto dedicado ao meu marido, Rodrigo e ao meu filho, Gabriel.

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