Estou em busca pela Júlia, esposa, cidadã, mulher, profissional, filha, irmã, etc, ou seja, a busca por todos os substantivos, qualidades e adjetivos que posso abrigar dentro de mim menos o de mãe, que sou e respiro 24 horas por dia.

Desde que voltei a trabalhar precisava de uma foto minha para atualizar um projeto no trabalho. Uma foto sem o Biel. Percebi que desde que o Biel nasceu, nunca mais tirei foto sozinha. Na verdade, eu quase não apareço nas fotos. Fotografo Biel diversas vezes por dia (mãe coruja a gente vê por aqui, afinal que mãe não é?), filmo, fotografo Biel com o pai, etc, mas fotos minhas com o Biel são poucas e fotos minhas simplesmente não existem.

Poderia usar uma foto feita por fotógrafo profissional tirada em julho do ano passado. Naquela época eu já estava grávida e nem sabia, mas simplesmente não queria, sabe? Aquela foto não me representa mais, o tempo foi passando, mantive uma foto minha grávida e deixei de lado. Mas isso foi me incomodando, ontem cheguei no trabalho e pensei “de hoje não passa”. Pedi ao amigo e padrinho de casamento que tirasse uma foto minha. Ele tirou algumas, eu escolhi duas. Uma publiquei no projeto e a outra no instagram.

Recebi diversos elogios nas duas e fiquei feliz (quem não ficaria? hehehe), ainda mais se formos levar em consideração, que nos últimos sete meses e meio eu deixei de ser o centro da minha vida e foquei toda minha energia e atenção no meu pequeno.

Acho que esse é um dilema que todas as mulheres passam em algum momento pós-maternidade. Lembro que minha mãe, que sempre foi super vaidosa, depois do parto da minha irmã deixou de se arrumar por um tempo. Passou a usar calças e blusas largas e olha que ela sempre teve um corpão, nunca foi gorda. Era simplesmente falta de tempo ou de vontade de se arrumar. Até que um dia numa conversa eu falei isso para ela… e eu tinha cerca de onze/ doze anos. Eu era nova, mas isso me marcou profundamente. Aos poucos ela foi retomando sua identidade, sua vaidade.

Não saio mais com as amigas para tomar chopp, não faço mais a unha com frequência, não passo mais creme no corpo e não lavo mais o cabelo todos os dias, muitas vezes acordo, prendo o cabelo e só solto na hora de dormir, não compro mais roupas e acessórios para mim, etc. Mas, tendo como referência a minha mãe, tento sempre sair arrumadinha, passar maquiagem, mesmo que básica. Porque não é porque somos mães que temos que andar com cara de acabada por aí. Só pelo fato de ter esse cuidado, já ouvi de muitas pessoas “nem parece que você tem filho pequeno”.

Alguns incômodos corriqueiros são mais profundos do que a gente pensa, nem sempre é fácil descobrir o que está por traz de certos sentimentos. Bem antes de engravidar, eu duvidava da minha capacidade de ser mãe. Não me entendam mal, eu sempre quis ser mãe, mas eu achava que não daria conta, que não teria forças, disposição.

Hoje, sete meses e meio depois, vejo que estava errada, que substimei a minha capacidade. Não sou perfeita e nem quero ser, mas tenho plena consciência de que sou “muito” mãe. “Muito” porque me joguei na maternidade. Aprendi, errei, me desesperei, chorei, voltei atrás, amei e amo muito todos os dias, todos os minutos. Mas chegou o momento de que preciso me reencontrar mais como individuo e menos como mãe. Talvez seja o início do processo de separação ou o início do fim da nossa fusão emocional. E isso dói, sabe?

Não tenho a resposta de como fazer para me reencontrar e achar o equilíbrio entre meus papéis antigos e os novos. Meu pequeno ainda exige muito de mim e eu amo e preciso disso. Por mais cansada que eu esteja tentando me reequilibrar, isso me alimenta. Enquanto não chego a uma conclusão, vou me contentando com as pequenas coisas. Nesta semana, com a minha primeira foto sozinha.

foto de mãe

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